Entrevistas

Província

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A Província São Maximiliano M.Kolbe celebrou no dia 02 de agosto de 2023 a festa de Nossa Senhora dos Anjos. A celebração foi realizada na Casa de Formação de Nossa Senhora dos Anjos, em Santa Maria DF. Estiverem presentes frades da Província, o Ministro Provincial fr.Gilberto, os formandos do Postulantado, o Pré-noviciado, os  frades professos e as pessoas da comunidade.

A festa do Perdão de Assis- As indulgências plenárias

Está festa celebra no dia 02 de agosto, a Festa do Perdão de Assis, Santa Maria dos Anjos da Porciúncula, segundo testemunhou Bartolomeu de Pisa, a origem da Indulgência da Porciúncula se deu assim: “Em uma noite linda , do ano do Senhor de 1216, Francisco estava intimamente compenetrado na oração e na contemplação estava mesmo ali na pequena ermida dedicada a Virgem Mãe de Deus, conhecida como igrejinha da Porciúncula, localizada em uma planície do Vale de Espoleto, perto de Assis, quando, de repente, a igrejinha ficou tomada de uma luz vivíssima jamais vista antes, e Francisco viu sobre o altar o Cristo e à sua direita a sua Mãe Santíssima, acompanhados de uma multidão de anjos. Francisco ficou em silêncio e começou a adorar o seu Senhor. Perguntaram-lhe, então, o que ele desejava para a salvação das almas. Francisco tomado pela graça de Deus que ama incondicionalmente, responde: “Santíssimo Pai, mesmo que eu seja um mísero, o pior dos pecadores, te peço, que, a todos quantos arrependidos e confessados, virão visitar esta Igreja, lhes conceda amplo e generoso perdão, com uma completa remissão de todas as culpas”.

O Senhor lhe disse: “Ó Irmão Francisco, aquilo que pedes é grande, de coisas maiores és digno e coisas maiores tereis: acolho, portanto, o teu pedido, mas com a condição de que tu peças esta indulgência, da parte minha, ao meu Vigário na terra (Papa)”. E não tardou muito, Francisco se apresentou ao Papa Honório III que, naqueles dias encontrava-se em Perugia e com candura lhe narrou a visão que teve. O Papa o escutou com atenção e, depois de alguns esclarecimentos, deu a sua aprovação e perguntou: “Por quanto anos queres esta indulgência”? Francisco, respondeu-lhe: “Pai santo, não peço por anos, mas por almas”. E feliz, se dirigiu à porta, mas o Pontífice o reconvocou: “Francisco, não queres nenhum documento”? E Francisco respondeu-lhe: “Santo Pai, de Deus, Ele cuidará de manifestar a obra sua; eu não tenho necessidade de algum documento. Esta carta deve ser a Santíssima Virgem Maria, Cristo o Escrivão e os Anjos as testemunhas”. E poucos dias mais tarde, junto aos Bispos da Úmbria, ao povo reunido na Porciúncula, Francisco anunciou a indulgência plenária e disse entre lágrimas: “Irmãos meus, quero mandar-vos todos ao paraíso!”

 

 

Segunda, 14 Julho 2025 12:57

Santo do Dia - São Boaventura

 

No dia 15 de julho, comemoramos o dia de São Boaventura, padroeiro do ISB e Convento São Boaventura de Brasília. São Boaventura, franciscano e reconhecidamente filósofo e teólogo é para cada um de nós uma via, caminho pelo qual podemos, por meio de seu estupendo conteúdo escrito, encontrar a vida verdadeira à luz de Deus. São Boaventura melhor do que ninguém é antes de tudo um mestre da espiritualidade e também da vida prática. Para nós que estamos unidos a ele basta-nos seguir o Itinerário do estudo para irmos ao encontro do próximo, onde aí habita Deus.

 

 Viva São Boaventura de Bagnorégio!

Viva o Convento e Instituto São Boaventura!

 

Foi bispo e reconhecido doutor da Igreja do Cristo que chamou pescadores e camponeses para segui-lo no carisma de Francisco de Assis, mas também homens cultos e de ciência. São Boaventura era um destes homens de muita ciência, porém, de maior humildade e conhecimento de Deus, por isto registrou o que vivia.

Escreve ele: “Não basta a leitura sem a unção, não basta a especulação sem a devoção, não basta a pesquisa sem maravilhar-se; não basta a circunspecção sem o júbilo, o trabalho sem a piedade, a ciência sem a caridade, a inteligência sem a humildade, o estudo sem a graça”.

Boaventura nasceu no centro da Itália em 1218, e ao ficar muito doente recebeu a cura por meio de uma oração feita por São Francisco de Assis, que percebendo a graça tomou-o nos braços e disse: “Ó, boa ventura!”. Entrou na Ordem Franciscana e, pela mortificação dos sentidos e muita oração, exerceu sua vocação franciscana e sacerdócio na santidade, a ponto do seu mestre qualificar-lhe assim: “Parece que o pecado original nele não achou lugar”.

São Boaventura, antes de se destacar como santo bispo, já chamava – sem querer – a atenção pela sua cultura e ciência teológica, por isso, ao lado de Santo Alberto Magno e Santo Tomás de Aquino, caracterizaram o século XIII como o tempo de sínteses teológicas.

Certa vez, um frei lhe perguntou se poderia salvar-se, já que desconhecia a ciência teológica; a resposta do santo não foi outra: “Se Deus dá ao homem somente a graça de poder amá-Lo isso basta… Uma simples velhinha poderá amar a Deus mais que um professor de teologia”. O Doutor Seráfico, assumiu muitas responsabilidades, como ministro geral da Ordem Franciscana, bispo, arcebispo, até que depois de tanto trabalhar, ganhou com 56 anos o repouso no céu.

 

V Simpósio Franciscano

Frei Marcelo Borges, OFMConv.

 

O Cântico das Criaturas (ou Cântico do Irmão Sol) é uma das mais célebres preciosidades textuais do carisma franciscano. Em oitocentos anos, suas inspirações permanecem a motivar diálogos teológicos, filosóficos, poéticos, literários, linguísticos, éticos e muitos outros. O tema proposto visa avistar este hino sob a perspectiva da espiritualidade. Neste ínterim, consideramos oportuno retirar as sandálias, pois estamos diante de um solo sagrado.

Introdução  

 Ao propor espiritualidade em nossos dias, podemos nos deparar com duas reações cada vez mais comuns e distintas, embora com semelhante perigo: por um lado, podemos ter que lidar com uma rejeição à proposta de espiritualidade por ela ser considerada etérea demais, fora do mundo demais, “avoada e sem os pés no chão”. O frenético ambiente comercial, visual, tecnológico, profissional e relacional no qual pautamos muitas de nossas relações considera tudo aquilo que não oferece produtividade, resultados imediatos, lucro ou compensação, como algo de menos valor. Assim, se em demasia valorizamos o que é passageiro e raso, aquilo que tende às profundidades do ser humano, com mais ou menos intensidade, tem sido repelido. A sociedade do descartável não tem afinidade pelo que tende a ser duradouro. 

 Por outro lado, também crítica e enquanto uma consequência direta desta comercialização das relações, outra reação frente a uma proposta de espiritualidade é trazê-la para o campo das inúmeras ofertas de satisfação pessoal que facilmente encontramos por aí. A hiperpopularização de propostas que prometem sucesso, realização pessoal, enriquecimento e controle de emoções, e que tomam como merchan discursos de espiritualidade, revela-nos que, no fundo de tudo, as águas rasas nas quais conduzimos as nossas embarcações não tem nos levado tão adiante quanto pensamos. Esta busca desenfreada por propostas espiritualistas revela que a sede do homem não se satisfaz com qualquer modalidade de “recompensa”. Queremos mais, insatisfeitos com o que não nos preenche em totalidade. 

 Seja em qual for destas temeridades nas quais nos arriscamos ao tratar de espiritualidade, ou ainda em muitas outras, elas expressam que a sede natural do homem por profundidade permanece a incomodá-lo enquanto ele não a avista. Ou lutamos a ferro e fogo por esta busca, ou nos acostumamos a levar uma vida medianamente suportável. Na primeira opção, é preciso coragem. Nadar contra a corrente é exercício que custa, graça cara. Por vezes, custa a vida. Aliás, por isso mesmo, a espiritualidade forja santos.

Dentro da perspectiva da espiritualidade cristã e franciscana, tema desta nossa reflexão, este incômodo que portamos no mais profundo de nosso ser tem um nome: a sede de Deus pela humanidade[1]. Mais intensa, mais segura e mais real do que qualquer busca humana, a espiritualidade cristã e franciscana se sustenta nesta constatação: antes de qualquer iniciativa nossa, Deus se antecipa em nos querer com Ele. Acima de qualquer outra verdade obtida da Revelação, é a proximidade da relação entre Deus e homem que Francisco experencia em sua vida, desde os primeiros momentos do que chamamos de sua conversão, e que tece os caminhos da espiritualidade que vemos expressa no Cântico das Criaturas. 

Esta verdade, a qual podemos nos referir por Encarnação[2], por si só, traz consigo as seguranças para os riscos que mencionamos anteriormente: primeiro, porque esta espiritualidade está alicerçada no que há de mais concreto para a nossa fé: na plenitude dos tempos Deus veio habitar em nosso meio. “A mais louca pretensão cristã não está do lado das afirmações metafísicas: ela é simplesmente a fé na ressurreição do corpo” (Mendonça, 2016, p. 28). Esta habitação permanece acontecendo hoje, neste solo, neste ar, na concretude e na realidade de nossos dias. É espiritualidade para este mundo e para esta vida, ainda que com olhar adiante. Segundo, porque busca recuperar, trabalhar e vivenciar aquilo que de mais profundo Deus deixou em nós: a sua própria presença. Neste horizonte, não há espaço para ser raso. 

O que é este “sopro vital”? É nada menos que o hálito de Deus, o seu Espírito que agora passa a estar ativo em cada vivente, percebido como fonte mesma da existência e codificado nos sentidos e manifestações vitais da pessoa humana. Com a criação (isto é, desde o princípio dos princípios) ficou estabelecida uma fascinante e inquebrável aliança: aquela que une espiritualidade divina e vitalidade terrestre. Pois onde experimentaremos melhor, a partir de agora, o Espírito de Deus senão no extremo da carne tornada vida? Onde contataremos com o seu sopro senão a partir do barro? Onde nos abriremos à sua tangível passagem senão através dos sentidos? (MENDONÇA, 2016, p. 11)

 Deste modo, a espiritualidade presente no Cântico das Criaturas reforça com beleza e com teologia aquilo que a fé cristã tem de tão precioso para os nossos dias: se abrirmos os olhos, podemos ver Deus entre nós. Esta Boa-Notícia[3] enraíza os nossos pés no chão e ergue os nossos braços aos céus. Assim, da mesma maneira que nos oferece um horizonte para além do que o nosso olhar possa alcançar, para o que há de mais pleno e profundo na vida humana, também produz frutos abundantes nas realidades mais simples e cotidianas nas quais vivemos. A espiritualidade franciscana impulsiona ao amanhã e transforma o hoje, e é esta transcendência e esta proposta de transformação que queremos abordar ao falar desta preciosidade espiritual que é o Cântico das Criaturas. 

 

A Espiritualidade do Cântico das Criaturas

 Durante a abertura do oitavo centenário da celebração de composição deste Cântico[4], o Frei Carlos Trovarelli, 120º Ministro Geral da Ordem Franciscana Conventual, concedeu uma entrevista e, questionado sobre qual mensagem poderia dar aos frades e amantes da espiritualidade franciscana por esta ocasião, disse: “Que não esqueçamos que somos contemplativos”. Esta exortação nos animou a tecer a reflexão que se iniciou na introdução de nosso tema. 

 Inspirado por esta palavra, considero que uma das principais expressões que o Cântico de Francisco reverbera para a herança franciscana é a de que este carisma tem raiz contemplativa. Por vezes, imersos nas correrias e nas demandas pastorais, eclesiais, vocacionais, humanas e tantas outras que abraçamos, esquecemos desta raiz: “(...) numa época em que estamos superconectados, tornase cada vez mais difícil fazer a experiência do silêncio e da solidão” (Papa Leão XIV). Diante das belas designações e dos fortes testemunhos que temos na Igreja sobre o que é a contemplação, para nosso estudo, ouso simplificar a sua significatividade com o exemplo do autor do Cântico.  

 De fato, é fundamental na compreensão da mensagem deste hino, considerá-lo fruto de uma intensa, demorada e cativante experiência de Francisco com o Senhor Jesus Cristo, pela qual ele chega neste momento de sua vida, em 1225. Não é, portanto, uma composição isolada de uma história, de um encontro, de uma vida e de uma espiritualidade amadurecidas e forjadas pelo relacionamento muito próximo entre ele, o poverello, e Deus. O Cântico canta, assim, um itinerário espiritual. 

 As fontes franciscanas relatam-nos sobre o contexto de sua composição[5]. Francisco está em São Damião, imerso em sofrimentos físicos e interiores. Dentre estes, os seus olhos estão intensamente feridos pela doença, ao ponto de a luz do sol ou do fogo lhe causar grande incômodo. Está praticamente cego. Como em tantas outras vezes, o célebre paradoxo do Evangelho o acompanha neste momento de sua história: quando os olhos do corpo de Francisco se apagaram, foi então que se abriram os olhos de sua alma, através dos quais um novo horizonte se abriu e o encantou. Tal qual São Paulo, as escamas em seus olhos foram curadas, e quando não mais corporalmente ele podia ver o que lhe envolvia, foi então que ele pode realmente tudo ver. 

 Uma informação que temos pelas fontes é a de que Francisco faz uma súplica a Deus, neste momento da composição, por uma consolação, em um momento de grande sofrimento físico e interior. A resposta de Deus ao lhe conceder este novo olhar, é, pois, uma graça, um dom e uma dádiva. Francisco bateu à porta; Deus a abriu. Porém, uma graça conquistada à duras penas. Como dito, espiritualidade é coisa de gente corajosa. Ao longo de toda a sua vida desde o seu encontro com a Paixão do Senhor, Francisco exercitou este novo olhar no discipulado[6]. Ele seguiu alguém, e este Alguém, agora, concede-lhe a graça da identificação.

 Assim como as mãos, os pés e o lado de Francisco estavam profundamente identificados a Cristo pelas chagas recebidas no Monte Alverne, em 1224, sinais profundos do grau de discipulado e de identificação que ele havia chegado ao seu Amado, agora são os seus olhos que se identificam como os mesmos de seu Senhor. Diríamos, então, que a espiritualidade do Cântico das Criaturas expressa que Francisco passou a enxergar todas as coisas como Cristo enxerga; com o olhar de Deus. Jesus, nos evangelhos, olha o leproso e, enquanto todos veem doença, Ele vê saúde; olha a adúltera e, enquanto todos veem apedrejamento, Ele vê vida nova; olha o perfume derramado e, enquanto todos veem desperdício, Ele vê doação; olha duas moedas e, enquanto todos veem pobreza, Ele vê entrega total. Jesus transcende o olhar, e quer que seus discípulos também passem a avistar assim, com olhar grande, com olhar de Deus. Somente com este olhar podemos, por exemplo, transcender ao que os sentidos dizem ser pão e vinho, para avistar Corpo e Sangue do Senhor. 

 O leproso havia já se tornado doçura para Francisco, desde que ele se propôs a vencer as suas próprias amarguras. O lobo feroz já havia sido amansado, para a surpresa de todos os que viam nele violência. O sultão já o havia abraçado em acolhida, enquanto todos esperavam o golpe das espadas. Já havia a mudança da sensibilidade dos olhos para enxergar além. Agora, no Cântico, é possível notar uma plenificação desta conversão: amarguras e doçuras, em Deus, encontram sentido. Este é, a meu ver, um primeiro ensinamento da espiritualidade do Cântico, assim como nos sugere o exemplo de Francisco de Assis e a exortação do Francisco de nossos dias: não esquecer que o nosso carisma nos conduz a ter o olhar profundo, para a realidade, para as doçuras e as amarguras, e nesta profundidade, ser capaz de encontrar Deus e sua sábia providência. Isso é contemplação.

 É com estes olhos que Francisco, ao olhar para a água, vê humildade, transparência e castidade. Ao olhar para o fogo (o mesmo que lhe cauteriza os olhos), vê beleza, fortaleza e robusteza. Personificadas com este olhar, as criaturas pedagogicamente nos ensinam a louvar o Criador. Em outras palavras, ele vê que toda a criação está sustentada pelo mesmo fio da existência, que é aquele com o qual Deus mesmo preenche sua obra, desde que quando criou e viu que tudo era muito bom (cf. Gn 1, 31). A bondade do Criador interliga sua obra criativa.

Se o mundo todo está prenhe desta revelação, e por mais que ainda esteja ansiosamente aguardando a revelação dos filhos de Deus, como que em dores de parto (cf. Rm 8, 19), a identificação dos olhares – olhar com o espírito – nos permite enxergar este mesmo fio, e louvar e agradecer por esta presença[7]. Mais ainda o ser humano; em nossa criação, recebemos o sopro do próprio Criador. Desde então, recuperar aquilo que este sopro pode nos fazer é a tarefa da espiritualidade. E para isso, temos um modelo máximo: Jesus Cristo de Nazaré, e a partir dele, em todos aqueles que com Ele se identificaram em discipulado. Esta é a graça que Francisco recebe, após muito trabalho de seguimento[8].

Outro aspecto importante relacionado à espiritualidade do Cântico, e também profundamente cristológico, faz referência à relação Criação-EncarnaçãoRedenção. Para Francisco e seu carisma, a redenção que Cristo realiza na Cruz tem eco cosmológico e tudo alcança: o sacrifício pascal de Cristo restaura e renova todas as coisas, e inaugura uma nova criação. Ele é, pois, o novo Adão (cf. 1Cor 15, 45-49). O Domingo da Ressurreição ilumina com nova luz todas as coisas: “(...) pois nele aprouve Deus fazer habitar toda a Plenitude e reconciliar por ele e para ele todos os seres, os da terra e os dos céus, realizando a paz pelo sangue da sua cruz.” (Colossenses 1, 20)[9]. É esta verdade evangélica que canta o Cântico; um autêntico hino de reconciliação. 

 Este novo olhar, muito distante de nos fazer fugir do mundo, ou pior, de nos fazer considerar-nos melhores e superiores a ele, faz-nos ainda mais profundamente mergulhar em nossas realidades mais corriqueiras e simples. Se Deus escolheu os caminhos da minoridade e da pobreza para se revelar a nós e para vir nos encontrar, é neste mesmo caminho que nós O encontraremos – sendo menores e pobres. Neste encontro reside a semente de transformação pessoal e, por consequência, da realidade10. É verdade para Francisco que Deus continua vindo ao nosso encontro todos os dias, de maneiras tão surpreendentes que, caso não estejamos com o olhar apurado, deixaremos que Ele passe despercebido[10].

Irmão Leão, escreve: não há milagres. O que há é reconciliação. Amei os lobos e os lobos foram carinhosos comigo. Amei as árvores e as árvores me deram sombra. Amei as estrelas e elas me deram resplendor. Fui cortês com o fogo e o fogo correspondeu a minha cortesia. Não há milagres. Ou melhor, tudo é milagre. Continua escrevendo, Irmão Leão: o paraíso está no coração; o inferno também está no coração. Quando o coração está vazio de Deus, o ser humano atravessa a criação como mudo, surdo, cego e morto; até a Palavra de Deus fica vazia de Deus. Quando o coração do ser humano se enche de Deus, o mundo inteiro fica povoado de Deus. Levantas uma pedra e aparece Deus. Olhas para as estrelas e te encontras com Deus. O Senhor sorri nas flores, murmura na brisa, pergunta no vento, responde na tempestade, canta nos rios... todas as criaturas falam de Deus, quando o coração está cheio de Deus. (LARRAÑAGA, 2012, p. 461).

Para isso, assumir o olhar de Deus como nosso olhar configura de um modo renovado e evangélico todas as nossas relações, com Deus, com o próximo e com o mundo inteiro. Reconhecer a paternidade universal de toda a criação tem por consequência reconhecer e abraçar a fraternidade universal que interliga todas as coisas. O conteúdo espiritual do Cântico, ao abrir o nosso olhar, abre-nos a esta outra dimensão: tudo é irmão, até a morte corporal. As escamas nos olhos são barreiras, são muros: ser curado delas constrói pontes. Se, pois, a espiritualidade deste hino nos convoca a ter a sensibilidade de reconhecer o Senhor próximo, e a nos identificarmos com o seu olhar, ele também nos revela o modo franciscano de se relacionar com quem nos cerca: “os irmãos de todos, os inimigos de ninguém, os companheiros dos últimos” (CANTALAMESSA, 2023, p. 132). 

O sol é irmão. Água, terra e céu são irmãos. Quem ofende é irmão. Francisco canta uma percepção: em seu proprium, tudo porta a marca da bondade do Sumo Bem. Por isso, louva-O. As criaturas, em sua identidade e dignidade, louvam o Divino Autor, e a primeira das atitudes do discípulo é a de louvor. Eis, pois, o nosso tema: o Cântico como uma “exultação no Espírito”. Desde o Antigo Testamento a revelação nos ensina: diante da presença de Deus, inclusive daquela que não esperamos e nos surpreende (mistério), a postura é a de louvar. Assim, o Cântico nos traz conteúdos teológicos, filosóficos, poéticos, linguísticos, exortações éticas, mas ele é, sobretudo, uma oração daquele que fez de si mesmo a própria oração (cf. 2Cel 95). Neste sentido, além de nos ensinar verdades teológicas e doutrinais, ou de nos conduzir a uma ou outra atitude ética[11], o Cântico quer primeiro nos conduzir ao louvor, à exultação, ao canto e à oração. É a tentativa de Francisco de nos inserir no hino de louvor da criação inteira.

Portanto, ao falar de espiritualidade no Cântico das Criaturas, podemos falar de duas outras expressões: interioridade, conquistada pela luz interior que purifica o nosso olhar para enxergar com os olhos de Deus; e alteridade, para que nos orientemos seja a quem for com este novo olhar. Não por acaso, o Crucificado que tomou o coração de Francisco até as fibras de seu coração, pelo qual ele chorou e viveu, é o Crucificado de São Damião: aquele que está de olhos abertos. Que não esqueçamos, irmãos, que somos contemplativos.

 

  

 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BÍBLIA. Português. Bíblia de Jerusalém. Tradução de Euclides Martins, Samuel Martins, Estêvão Bettencourt, Gilberto Gorgulho, Theodoro Maurer, Jorge Mota, Benjamim Carreira, Ney Brasil, Isaac Nicolau, Luiz Inácio, Ivo Storniolo, Calisto Vendrame, José Vidigal, Domingos Zamagna e Joaquim Zamith. São Paulo: Paulus, 2002.

 CANTALAMESSA, Raniero. Francisco de Assis – O gênio religioso e o santo. Trad. Silvana Cobucci. São Paulo: Edições Loyola, 2023. 

 Dicionário Franciscano. Trad. FFB. 2ª Ed. Petrópolis: Vozes; Cefepal, 1999. 

 Fontes Franciscanas. Santo André: O Mensageiro de Santo Antônio, 2005.

 LARRAÑAGA, Inácio. O Irmão de Assis. São Paulo: Paulinas, 2012.

 LEITE, Frei Leonardo. Uma imersão no Cântico das Criaturas – Origem e atualidade do louvor de São Francisco de Assis. Teresina: Editora e Livraria Nova Aliança, 2025.

 MENDONÇA, José Tolentino. A mística do instante: o tempo e a promessa. São Paulo: Paulinas, 2016.

 PASQUALE, Gianluigi. Francisco – O arauto de Deus. São Paulo: Paulinas, 2016. 

 Textos e Anotações pessoais de diversos momentos da minha formação, de diversos autores e mestres de vida e de espiritualidade. 

 [1]Em pelo menos dois episódios, Jesus manifesta o que é esta sede de Deus: “Dá-me de beber!” (Jo 4, 7) e “Tenho sede!” (Jo 19, 28), na Cruz, possuem reverberações teológicas profundas a respeito do anseio de Deus por cada um de nós, anseio que se expressa desde a criação. A simbologia bíblica é rica em acenar para este fato. Em Gênesis, imediatamente após o relato do pecado da desobediência de Adão e Eva, o autor afirma que eles “(...) se esconderam da presença de Iahweh Deus, entre as árvores do jardim” (Gn 3, 8), logo ao ouvirem o seu passo. Em contrapartida, Iahweh, mesmo ciente da desobediência, chama o homem (cf. Gn 3, 9). A pergunta que faz – Onde estás? – reverberará por toda a história, à medida que toda a revelação não é outra coisa senão a autoexpressão do amor de Deus que procura (continua a procurar) o ser humano (ainda que na ocorrência do pecado), procura esta que, por Amor, levou Deus a dar a sua vida por nós. Sede de Amor.

[2] Aqui, falamos não somente do dado teológico da Encarnação do Verbo, ocorrida em um tempo e em um lugar específicos, nas condições as quais os evangelhos nos relatam. Encarnação, neste sentido franciscano que queremos fazer alusão, é toda e qualquer presença e permanência de Deus em nosso meio, como Deus-Emanuel, que participa e caminha com a sua criação dos modos mais próximos e surpreendentes possíveis. Deus que continua a caminhar ao nosso lado em cada dia, em cada sofrimento, em cada instante, através da oração, da Eucaristia, dos pobres, de sua palavra, de sua presença interior em nós, de sua criação, etc. 

[3] Ευαγγέλιο, em grego (euangélion).  

[4] Em 11 de janeiro de 2025, em Assis. 

[5] Por exemplo, na Compilação de Assis 83, p. 764.

[6] “O Francisco da perfeita alegria, o arauto de Deus, que fala com o lobo, que canta embevecido a beleza das criaturas. Estes são frutos desabrochados nos ramos, no ápice de sua ascensão, sem que ele nem sequer se desse conta disso. Primeiro, no subsolo, houve um drama: Francisco chorou a vida inteira. Ficou cego – todas as fontes o atestam – de tanto chorar. (...)Porque nós somos feitos assim: gostamos da liberdade de Francisco, mas não do caminho pelo qual ele chegou a essa liberdade.” (CANTALAMESSA, 2023, p. 48-49, grifo nosso). 

[7] Em São Boaventura, esta presença chama-se vestigio Dei, através do qual, pelas criaturas, é possível constatar as pegadas daquele que as criou. Os termos filosóficos e teológicos de alteridade, identidade e diferença são essenciais para driblar todo risco de panteísmo. 

[8] Em uma entrevista, perguntaram ao Papa Francisco o que mais Francisco tinha a dizer aos nossos dias. Eis sua resposta: “O que testemunha a nós hoje? Antes de tudo, que ser cristão é uma relação vital com a pessoa de Jesus, é revestir-se dele, é assemelhar-se a ele. (...) Esse é o começo de tudo, é a experiência da graça que transforma: descobrir ser amado sem merecer.” (Francisco in PASQUALE, 2016, p. 15-16). Concordamos com o Santo Padre. No centro de todo testemunho e ensinamento de Francisco e de nossa espiritualidade, estão: a relação vital com Jesus; revestir-se e assemelhar-se dele (discipulado de identificação). E para começar este seguimento, a graça inicial: o reconhecimento do quanto o Amor (nos) ama. Sem isso é muito difícil caminhar nas veredas do Evangelho. Descobrir-se amado é o que o torna fardo suave e jugo leve, em meio às suas exigências, sacrifícios, dores e dificuldades. E esta é a reconstrução que Francisco realiza na Igreja, como um pedido do próprio Deus. 

[9] E Francisco: “E assim suplico a todos vós Irmãos, beijando-vos os pés e com aquela caridade que posso, que manifesteis toda a reverência e toda a honra o quanto puderdes, ao santíssimo corpo e sangue do Senhor Nosso Jesus Cristo, no qual, todas as coisas que existem nos Céus e na Terra foram pacificadas e reconciliadas com o Deus Onipotente” (Carta a toda a Ordem, p. 101). Aqui, uma outra relação importante: Criação-Encarnação-Redenção-Eucaristia. A escolha surpreendente e benevolente de Deus em se manter presente real e vivamente nas espécies consagradas do pão e do vinho, isto é, na mais comum das criaturas, é prova clara de que esta criação é genuinamente boa.  10 “Francisco é talvez, depois do próprio Jesus, a prova mais evidente de que é renovando o homem no íntimo que se renovam também a sociedade e as estruturas. Nenhum homem da Idade Média se propôs menos que Francisco a mudar a sociedade e nenhum homem da Idade Média de fato mudou a sociedade mais que Francisco.” (CANTALAMESSA, 2023, p. 61). 

[10] Como em um leproso qualquer no meio do caminho, como em uma simples igreja em ruínas, como em uma esporádica leitura bíblica em uma celebração. 

[11] Sabemos que o contexto epocal de Francisco não está preocupado com a crise ambiental, pelo menos não na dimensão e na gravidade da crise na qual nos encontramos contemporaneamente, o que reforça ainda mais a atualidade e a fecundidade deste hino de nosso Pai Seráfico. Sem a palpável constatação de que, se não mudarmos, nosso tempo aqui é breve, Francisco já entoou o lugar que a criação ocupa em nossa fé. Seria ainda mais urgente constatar este papel salvífico da criação diante da crise severa que nos ameaça. Neste discernimento, o Papa Francisco, uma das vozes do poverello de nossos dias, atualizou a mensagem em sua encíclica Laudato Si, neste ano também em jubileu. 

 

A Província São Maximiliano Maria Kolbe acolhe nesta semana, em Brasília (DF), a 37ª edição do Curso de Inverno, promovido com a participação de frades professos pertencentes às diversas jurisdições que integram a União dos Conventuais do Brasil (UCOB).

O Curso de Inverno de Franciscanismo é um período formativo essencial que visa o amadurecimento do carisma franciscano dos jovens frades. Durante esse período, eles são incentivados a refletir sobre seu testemunho e missão enquanto menores conventuais. A 37ª edição do curso, realizada entre os dias 07 a 18 de julho, na Casa de Formação de Pós-Noviciado “São Francisco de Assis” e reúne cerca de 30 frades vindos das seguintes jurisdições:

  • Província São Maximiliano Maria Kolbe (Brasília),
  • Província São Francisco de Assis (São Paulo),
  • Custódia São Boaventura (Maranhão),
  • Custódia Imaculada Conceição (Rio de Janeiro),
  • Custódia Nossa Senhora do Coromoto (Venezuela).

Com uma programação rica em espiritualidade e formação, o curso tem como eixo principal o franciscanismo. A XXXVII edição do Curso de Inverno traz, neste ano, uma ênfase especial aos 800 anos do “Cântico das Criaturas”, de São Francisco de Assis.

A missa de abertura foi presidida na manhã de hoje (7) pelo Ministro Provincial Frei Gilberto de Jesus, OFMConv., marcando o início oficial das atividades. Entre os dias 7 e 9, ocorre o Simpósio com reflexões e aprofundamentos temáticos. O curso segue até o dia 18 de julho com uma série de conferências, partilhas e vivências centradas no carisma e na vida de São Francisco.

Abaixo um resumo dos temas que serão debatidos nas próximas semanas

Entre os dias 7 e 9 haverá apresentações e palestras sobre o simpósio, com ênfase nos 800 anos do Cântico das Criaturas, tendo como palestrantes Frei Henrique, Frei Luís Felipe Lopes, Frei Luís Ventura, Dom Ricardo Hepers, Prof Esp. Vicente Sérgio Brasil Fernandes, Frei Marcelo Borges, Prof. Drª Márcia Helena Rodrigues Paroli e Dr Marcos Aurélio.

Já nos dias 9 e 10, o tema abordado será “A escola de Oxford: Roger Bacon” e, para esse tópico o palestrante será o Prof. Dr. Marcos Aurélio.

Nos dias 11 e 14 de julho, o tema II a ser abordado será “História da presença dos Franciscanos na América Latina” e será de responsabilidade do Frei Sandro, OFM. e Frei Antônio Quiceno, OFMConv.

Já entre os dias 15 e 16 o tema abordado será “O magistério exercido por Santo Antônio e suas contribuições para o franciscanismo”. Esse tema será abordado pelo Frei Charles, Frade Menor Missionário.

Fechando os assuntos, nos dias 16 e 17 será abordado o IV e último tema “O pensamento de Raimundo Lulio” sob os cuidados do Prof. Ms. Saulo Brito. No dia 18 pela manhã acontece a avaliação e encerramento do curso.

     Entre os dias 26 de junho e 3 de julho, o Ministro Provincial da Província São Maximiliano Maria Kolbe, Frei Gilberto de Jesus, realizou uma série de visitas fraternas às comunidades conventuais dos frades franciscanos que atuam no estado do Tocantins. A visita teve caráter pastoral e espiritual, promovendo o encontro e a escuta nas fraternidades locais.

     A primeira comunidade visitada foi a Casa Filial São Maximiliano Maria Kolbe, em Palmas, capital do estado. Em seguida, Frei Gilberto dirigiu-se à cidade de Divinópolis, onde está situada a Casa Filial São Francisco Fasani, encerrando o itinerário na Casa Filial Dom Frei Agostinho, localizada em Aragominas. A presença do Ministro Provincial reafirma o compromisso da Província com a missão confiada a cada fraternidade e renova o espírito de fraternidade, serviço e fidelidade ao carisma de São Francisco de Assis e de São Maximiliano Kolbe.

     No dia 28 de junho de 2025, foi oficialmente encerrado o ano acadêmico de um grupo de frades estudantes, que celebraram a conclusão do ciclo letivo com gratidão e sentimento de missão cumprida. Em comunicado enviado, destacaram os bons resultados obtidos nas avaliações e o desempenho positivo nas atividades acadêmicas ao longo do período.

     Entre os destaques, Frei Leonardo concluiu com êxito algumas provas realizadas em língua polonesa, evidenciando o esforço e a dedicação na superação dos desafios linguísticos e culturais enfrentados durante a formação. O ano letivo, segundo os frades, foi marcado por diversas conquistas e superações, registradas em fotos que foram compartilhadas para ilustrar momentos significativos vividos na caminhada formativa. Com o encerramento das atividades acadêmicas, os religiosos iniciam agora o período de férias e prática pastoral. Já o próximo ano acadêmico, referente ao ciclo 2025/2026, está previsto para começar em outubro. Em sua mensagem, os frades agradeceram às orações e ao apoio espiritual recebidos ao longo do ano e pediram que continuem intercedendo por eles. O objetivo é que possam concluir a formação com êxito e, assim, retornarem ao Brasil preparados para servir com zelo e generosidade.

No último domingo, 22 de junho de 2025, a Basílica de São Francisco de Assis sediou uma celebração especial em ação de graças pelos 50 anos de vida sacerdotal do frei João Batista. A Santa Missa foi presidida por Dom Giambattista Diquattro, Núncio Apostólico no Brasil, e contou com a presença de fiéis, religiosos e amigos do homenageado.

Frei João Batista, atualmente com 75 anos, nasceu em 7 de junho de 1950, na Polônia. Ingressou na vida religiosa franciscana em 1968, ao iniciar o noviciado. Sua ordenação sacerdotal ocorreu no dia 22 de junho de 1975, também na Polônia.

No ano seguinte, em 16 de novembro de 1976, frei João Batista chegou ao Brasil, onde tem exercido seu ministério sacerdotal pelos últimos 49 anos, dos 50 de sua trajetória. Assim, a maior parte de sua missão foi vivida em solo brasileiro.

A celebração foi marcada por gratidão e emoção, expressando o reconhecimento da Igreja e da comunidade franciscana pelo testemunho e dedicação do frei ao longo de cinco décadas. Ao final, manifestou-se um agradecimento especial a Deus por sua vocação, com votos de bênçãos e saúde ao sacerdote jubilar.

Sexta, 20 Junho 2025 17:19

Discurso do Papa Leão XIV

DISCURSO DO PAPA LEÃO XIV 
AOS PARTICIPANTES NOS CAPÍTULOS GERAIS: 
FRADES MENORES CONVENTUAIS; 
ORDEM DA SANTÍSSIMA TRINIDADE PARA A REDENÇÃO DOS CATIVOS
(TRINITÁRIOS)

Sala Clementina
Sexta-feira, 20 de junho de 2025

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Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo!
A paz esteja convosco!

Bem-vindos, amados irmãos e irmãs! Saúdo em particular os Superiores-gerais - ambos foram confirmados - os Conselheiros e os Capitulares da Ordem dos Frades Menores Conventuais e da Ordem da Santíssima Trindade e dos escravos, assim como os delegados das Ordens Terceiras e dos grupos laicais.

Poder receber juntos Franciscanos e Trinitários fez-me lembrar uma pintura que se encontra na abside da Basílica de São João de Latrão, que representa uma audiência da qual esta poderia ser uma bonita evocação. Com efeito, a imagem mostra o Papa Inocêncio III que recebe São Francisco e São João de Mata juntos, a fim de honrar a sua grande contribuição para a reforma da vida religiosa.

É interessante observar que São Francisco é representado de joelhos, com um enorme livro aberto, quase como se estivesse prestes a dizer ao Pontífice: «Santidade, peço-lhe apenas para viver a regra do Santo Evangelho sine glossa» (cf. Test 14-15). São João de Mata, pelo contrário, está de pé e segura nas mãos a Regra que redigiu com o Pontífice. Se São Francisco mostra a sua docilidade à Igreja, apresentando o seu projeto não como próprio, mas como dádiva divina, São João de Mata mostra o texto aprovado, após o estudo e o discernimento, como ápice de um trabalho absolutamente necessário para realizar o propósito que Deus inspirou. As duas atitudes, longe de estar em contraste entre elas, iluminar-se-iam mutuamente, constituindo uma linha-guia para o serviço que desde então a Santa Sé desempenhou a favor de todos os carismas.

Deus inspirou nestes dois Santos não apenas um caminho espiritual de serviço, mas também o desejo de se confrontar com o Sucessor de Pedro sobre o dom recebido do Espírito para o pôr à disposição da Igreja. São Francisco expõe ao Papa a necessidade de seguir Jesus sem reservas, sem outras finalidades, sem ambiguidades nem artifícios. São João de Mata exprimiu esta verdade com palavras que depois se revelariam fundamentais e que São Francisco tornaria suas. Um bom exemplo consistirá em viver «sem nada de próprio», sem nada «escondido na cela, no bolso ou no coração», como realçou o Papa Francisco (cf. Discurso às Canonisas da Ordem do Espírito Santo, 5 de dezembro de 2024). Outro destes termos exprime a necessidade de que tal dedicação se transforme em serviço, de que o superior seja visto como ministro, isto é, aquele que se faz menor, para ser o servo de todos. É interessante constatar que o versículo de São Mateus (cf. 20, 27) influenciou o vocabulário de toda a vida religiosa, pois chamar de prior, mestre, magister ou ministro molda todo o conceito de autoridade como serviço.

Para atualizar este dom, vós, trinitários, quisestes centrar-vos no propósito do vosso Instituto: levar consolação a quantos não podem viver a fé em liberdade. Durante estes meses transformastes em oração este desejo, seguindo as palavras de São Paulo: «Perseguidos, mas não abandonados; derrubados, mas não aniquilados» (2 Cor 4, 9), que inspiram o lema do vosso capítulo. Uno-me a esta oração e peço também a Deus Trindade que este seja um dos frutos da vossa assembleia, que não deixeis de recordar na vossa oração e esforço diário quantos são perseguidos por causa da fé. Esta parte, a terceira - relativa aos perseguidos - segundo o magistério de Santo Agostinho, é a parte de Deus, que marca a vocação do libertador do seu Povo (cf. Questões sobre o Heptateuco, lib. II, 15). Além disso, esta tensão para os membros mais sofredores da Igreja chamará a atenção das vocações, dos fiéis e dos homens de boa vontade para esta realidade, mantendo-vos disponíveis para os serviços de fronteira que desempenhais na Península Arábica, no Médio Oriente, na África e no subcontinente indiano.

Outro elemento essencial do vosso propósito neste Capítulo, Frades Menores Conventuais, consistiu em realizar um discernimento sobre os regulamentos dos Capítulos gerais e provinciais, porque neles «se fala das realidades de Deus». Não é o nosso interesse pessoal que nos deve mover, mas sim o de Cristo; é o seu Espírito que devemos ouvir em primeiro lugar, para «escrever o futuro no presente» - como reza o lema do vosso Capítulo. Ouvi-lo na voz do irmão, no discernimento da comunidade, na atenção aos sinais dos tempos, nos apelos do Magistério. Amados filhos de São Francisco de Assis, no oitavo centenário da composição do Cântico das criaturas ou do irmão sol, exorto-vos a ser, cada um pessoalmente e em cada uma das vossas confrarias, uma recordação viva do primado do louvor de Deus na vida cristã. E não quero esquecer que vós, Conventuais, celebrais o aniversário da vossa renovada presença no Extremo Oriente.

Caríssimos, gostaria de concluir este encontro com os Louvores a Deus Altíssimo, o triságio escrito por São Francisco: «Tu és santo, Senhor, único Deus, que realizas maravilhas. Tu és forte, Tu és grande, Tu és altíssimo, Tu és rei todo-poderoso, Tu, Pai santo, rei do céu e da terra» (Fontes Franciscanas, 261).

Obrigado a todos vós e que Deus vos abençoe!

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Copyright © L'Osservatore Romano

 

Fonte: Vatican

O Papa Leão XIV recebeu os Capítulos Gerais dos Frades Menores Conventuais e dos Trinitários, refletindo com eles sobre a riqueza de seus carismas, a fidelidade ao Evangelho e o serviço aos perseguidos.

Em audiência realizada hoje, o Papa Leão XIV recebeu membros dos Capítulos Gerais dos Frades Menores Conventuais e da Ordem da Santíssima Trindade e dos Escravos, bem como delegados das Ordens Terceiras e grupos leigos. Em sua mensagem, o Santo Padre ofereceu uma profunda meditação sobre a complementaridade de seus carismas, a fidelidade ao Evangelho e o serviço aos perseguidos por causa de sua fé.

Uma imagem que inspira unidade

"O fato de termos podido acolher franciscanos e trinitários juntos me fez lembrar de uma pintura na abside da Basílica de São João de Latrão, representando uma audiência, o que poderia ser uma bela comemoração. De fato, a imagem mostra o Papa Inocêncio III acolhendo São Francisco e São João de Mata juntos para homenagear sua grande contribuição à reforma da vida religiosa."

A partir desta imagem, Leão XIV refletiu sobre duas atitudes essenciais na vida consagrada: a docilidade ao Espírito e a colaboração com o discernimento da Igreja.

São Francisco, representado ajoelhado com um grande livro aberto, personifica o radicalismo evangélico expresso em seu famoso desejo de "viver a Regra do Santo Evangelho sem glossa". Por sua vez, São João de Mata, de pé com a Regra aprovada, representa o trabalho de discernimento eclesial necessário para encarnar esse carisma, disse ele. "As duas atitudes, longe de serem opostas, iluminam-se mutuamente", disse o Pontífice, enfatizando que essa complementaridade continua sendo um modelo para o serviço da Santa Sé aos carismas na Igreja.

"Deus inspirou a estes dois Santos não só um caminho espiritual de serviço, mas também o desejo de dialogar com o Sucessor de Pedro sobre o dom do Espírito que haviam recebido, a fim de o tornar disponível à Igreja. São Francisco explicou ao Papa a necessidade de seguir Jesus sem reservas, sem segundas intenções, sem ambiguidades ou artifícios. São João de Mata expressou esta verdade com palavras que mais tarde se revelariam fundamentais e que São Francisco faria suas. Um bom exemplo seria viver “sem nada próprio”, sem nada “escondido no fundo do bolso ou no coração”, como sublinhou o Papa Francisco (cf. Discurso aos Cónegos da Ordem do Espírito Santo, 5 de dezembro de 2024).”

Trinitários: consolação para os perseguidos

Dirigindo-se aos trinitários em particular, Leão XIV elogiou sua atenção àqueles perseguidos por sua fé, uma vocação profundamente enraizada na tradição da ordem. Aludindo às palavras de São Paulo: "Perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não destruídos" (2 Cor 4,9), uno-me a esta oração, acrescentou o Papa em espanhol, pedindo também a Deus Trindade que este seja um dos frutos de sua assembleia, para que não deixem de se lembrar, em sua oração e em seus esforços diários, daqueles que são perseguidos por sua fé. Essa parte, a terceira — referente aos perseguidos —, segundo o ensinamento de Santo Agostinho, disse ele, é a parte de Deus e a que marca a vocação do libertador de seu Povo (cf.Questões sobre o Heptateuco, livro II, 15). Em seguida, ele encorajou os líderes religiosos a manterem viva essa missão em contextos difíceis como a Península Arábica, o Oriente Médio, a África e o subcontinente indiano.

Franciscanos Conventuais: discernir para servir

O Papa encorajou os Frades Menores Conventuais a continuarem seu caminho de discernimento no âmbito de seus Capítulos Gerais e Provinciais. Lembrou-lhes que suas decisões devem nascer da escuta do Espírito e dos irmãos, atentos aos sinais dos tempos e aos apelos do Magistério.

No ano que marcou o oitavo centenário do Cântico das Criaturas, o Pontífice os exortou a serem uma "lembrança viva da primazia do louvor" e reconheceu a expansão da ordem no Extremo Oriente como um sinal de vitalidade missionária.

O encontro foi concluído com uma oração: o Papa recitou os louvores a Deus Todo-Poderoso, o trisagion composto por São Francisco de Assis:

"Tu és santo, Senhor, um só Deus, que operas maravilhas. Tu és forte, Tu és grande, Tu és altíssimo, Tu és rei todo-poderoso, Tu, Pai santo, rei do céu e da terra" (Fontes Franciscanas, 261).

Uma oração que ressoa como uma síntese do espírito evangélico que ambos os carismas são chamados a renovar e salvaguardar na Igreja hoje.

 

Traduzido e adaptado de: Vatican News
Texto original por: Patricia Ynestroza - Cidade do Vaticano
Para visualizar mais imagens, clique aqui.

Terça, 17 Junho 2025 17:41

203º Capítulo Geral Ordinário

Abaixo segue um pequeno resumo do que aconteceu até agora no 203º Capítulo Geral Ordinário da Ordem dos Frades Menores Conventuais, que acontece entre 1º e 21 de junho.

 

No dia 14 de junho, durante a sessão do Capítulo Geral dos Frades Menores Conventuais, foi realizado um encontro entre os ministros gerais das principais expressões da família franciscana: os Frades Menores, os Frades Capuchinhos, a Ordem Terceira Regular (TOR) e os Frades Menores Conventuais.

O encontro teve como objetivo fortalecer a fraternidade e a comunhão entre as diferentes ordens, além de refletir sobre os trabalhos conjuntos realizados ao longo dos últimos anos. Durante a reunião, os ministros compartilharam experiências, destacando avanços, desafios e frutos obtidos a partir das iniciativas comuns desenvolvidas no espírito de colaboração e unidade franciscana.

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